O lucro é indissociável do negócio, inclusive quando estamos falando de microfinanças. Só depois de cinco anos de investimento, conseguimos, finalmente, atingir em 2007 o ponto de equilíbrio de nossas operações da RealMicrocrédito. Isso foi possível por que, em 2006, descobrimos como ganhar escala de clientes no segmento, único caminho para obtermos resultado concedendo crédito para microempreendedores era buscar decididamente a ampliação da escala de clientes. O processo de aprendizado foi árduo porque sempre tratamos o microcrédito
como um negócio, não como um investimento social corporativo. Concentramos esforços na expansão das praças e na contratação de pessoas experientes nesse tipo de operação financeira.
Com uma equipe de mais de 250 agentes, passamos a atender cerca de 200 municípios. Até 2006, estávamos em 34 municípios, com 76 agentes. No período de um ano, entre dezembro de 2006 e 2007, nossa base de clientes saltou de 11,5 mil para 53,4 mil – com uma carteira de crédito de R$ 57 milhões -, e o número de agentes passou de 78 para 259. Estamos na posição de segunda maior empresa de microcrédito
do País, atrás apenas do Banco do Nordeste.
Vencida a meta de tornar o microcrédito
lucrativo, por meio do ganho da escala, logo nos impusemos outro desafio, ainda mais ousado. Queremos, agora, aprofundar mais o processo de atender a população que se encontra na base da pirâmide econômica, tornando ainda mais inclusiva nossa atuação em microfinanças. Com essa proposta, criamos, em 2007, o projeto Village Banking, cujo piloto está sendo testado com moradores da comunidade Jacamim, na ilha de Tauá Mirim, situada a uma hora de barco de São Luís, no Maranhão. No pequeno povoado, com 3 mil habitantes, estamos apoiando 14 microempreendedores, com empréstimos máximos de R$ 500 para cada um (a média é R$ 300). A inspiração veio da metodologia do chamado “banqueiro dos pobres”, Muhammad Yunus, que venceu o Prêmio Nobel da Paz 2006 graças à criação de um eficiente sistema de microcrédito implantado em Bangladesh.
Uma das características desse banco comunitário é a concessão de um único crédito para um grupo de até 30 empreendedores. Ao contrário do sistema tradicional, em que o negócio é fechado individualmente, no Village Banking o aval é coletivo. “O próprio grupo decide o valor do empréstimo para cada um dos participantes, pois, se um deles ficar inadimplente, a dívida é paga pelos demais”, explica José Giovani Porto Anversa, superintendente executivo da RealMicrocrédito.
Os obstáculos para levar o microcrédito
para as localidades mais longínquas do Brasil são grandes. Muitas não têm sequer rede bancária. As dificuldades vão desde o acesso às comunidades - os agentes de São Luís têm de pegar uma moto, um barco e ainda andar a pé para chegar à Jacamim – até a adequação dos sistemas internos do Banco, estruturados para ter um devedor e um avalista para cada negociação de empréstimo - e não 18. Os desafios são enormes, mas estamos dispostos a encontrar uma maneira de superálos, promovendo a melhoria das condições de vida do maior número possível de brasileiros e, ao mesmo tempo, assegurando a sustentabilidade do nosso negócio. A expectativa é que, nos próximos dois anos, o projeto responda por 20% a 30% dos negócios da RealMicrocrédito.
Os desafios são enormes, mas estamos dispostos a encontrar uma maneira de superá-los, promovendo a melhoria das condições de vida do maior número possível de brasileiros e, ao mesmo tempo, assegurando a sustentabilidade do nosso negócio. A expectativa é que, nos próximos dois anos, o projeto responda por 20% a 30% dos negócios do RealMicrocrédito.
Para aumentar a lucratividade, Santos vendeu o carro velho, comprou uma bicicleta e, agora, comemora o equilíbrio das finanças.
A RealMicrocrédito, que atende as comunidades de grandes centros, como Joinville (SC), é feita com histórias como a de Ednilson Miguel dos Santos. Há dez anos, Santos percorre as ruas de Joinville vendendo os tapetes de malha que ele mesmo fabrica. Endividado por conta de despesas com o carro velho usado nas vendas e com o aluguel de um tear, Ednilson já pensava em mudar de atividade quando soube da RealMicrocrédito.
“O agente confiou em mim e não só conseguiu aprovação do crédito de que eu necessitava como ajudou a organizar meus documentos pessoais, que eu ainda não tinha.”
Contra a maré
O caminho, que hoje é bem-sucedido com as comunidades de menor renda dos centros urbanos, agora poderá dar certo também nas localidades brasileiras mais distantes. A nossa meta será fazer com que esse projeto atinja a escala já obtida nas cidades maiores, onde, finalmente, alcançamos uma capacidade de negócios para transformar o alto custo operacional da carteira e as baixas taxas de juros, inerentes ao microcrédito
, em resultados positivos. “Provamos que não éramos rentáveis porque não tínhamos escala e que só teríamos o retorno necessário se houvesse mais investimento”, diz Anversa.
Diante da atual conjuntura econômica do País, cinco anos pode até ser considerado um período curto. No mundo das finanças, às vezes, é uma eternidade. Começamos a colher frutos agora porque nos antecipamos à legislação e tivemos a persistência de investir em microcrédito
por acreditar nesse tipo de negócio como uma ferramenta de distribuição de oportunidades e, ao mesmo tempo, geração de lucro.
O “salto na vida” de Ednilson Miguel dos Santos, lá em Joinville, poderá ser dado também por muitos outros empreendedores de todo o País se a experiência de microcrédito que está em teste em Jacamim der certo. Já existe um projeto para levar o banco comunitário a pequenos produtores rurais do entorno da Usina Sapucaia, empresa sucroalcooleira localizada em Campos (RJ). Apesar de ter a melhor produtividade da região (67 toneladas de cana por hectare), a produção da Sapucaia está 35% abaixo das usinas paulistas, devido à falta de investimentos após imprevistos como a enchente em 1997, seca e preços baixos em 2001 e chuvas intensas em 2004, 2005 e 2007. O programa prevê parceria com a Usina Sapucaia, que fornecerá aos agricultores orientação técnica, mudas adequadas e a garantia de compra de 100% da produção.
Próximos passos
A oferta de serviços direcionados a esses clientes é essencial para a democratização do crédito, a ampliação da distribuição de renda e a redução da informalidade na economia. Serve também, como porta de entrada para milhões de pessoas aos serviços financeiros, cidadãos que, hoje, vivem à margem desses benefícios. Além disso, está em sintonia com a ambição de todo o sistema. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) tem se empenhado em apoiar as iniciativas que ampliam a bancarização no País.
Até 2007, atingimos 53 mil clientes, de um universo de 19 milhões de microempreendedores. Nossa ambição é alcançar cada vez mais comunidades e seguir ampliando a escala, iniciativa importante tanto para viabilizar o negócio como para apoiar a aceleração das transformações sociais.
Para o Banco, o apoio ao microempreendedor é uma forma eficiente de investir na formação de novos clientes e na construção de um dos negócios que irá compor a base da nossa rentabilidade amanhã. E esse movimento não deve se resumir à modalidade de Microcrédito Produtivo Orientado. Nosso desafio, em 2008, é criar novos produtos de microfinanças, como cartões, seguros e consórcio, entre outros, especialmente desenhados para atender às necessidades das pessoas que estão na base da pirâmide. Assim, teremos mais condições de gerar resultados a partir da inclusão econômica e social dos brasileiros.

Favela de Paraisópolis, em São Paulo.
Um mar de oportunidades para o microcrédito. Aqui, já emprestamos R$ 500 mil, em 2007, totalizando 240 contatos.
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A mulher no microcrédito
Quase a totalidade dos clientes da RealMicrocrédito é formada por nano ou microempresários, que tomam os empréstimos na condição de pessoa física. A média de valor por contrato é de R$ 1,5 mil. Outra característica dos clientes é que a maioria, 66%, é mulher. Elas atuam principalmente como vendedoras de roupas e cosméticos, cabeleireiras, costureiras e artesãs. Elisabeth Souto Gonçalves Passero, de Joinville, por exemplo, tomou empréstimo de R$ 1 mil para comprar matéria-prima para produzir peças bordadas com pedraria.
Elisabeth conheceu a RealMicrocrédito no Consulado da Mulher, projeto de responsabilidade social da Whirlpool (dona das marcas Cônsul e Brastemp), criado para oferecer capacitação para geração de trabalho e renda. Muitas das 8 mil mulheres que freqüentam anualmente os cursos oferecidos na entidade têm potencial para tornarem-se empreendedoras. Para atender esse público, fechamos parceria com as unidades do projeto em Joinville e Rio Claro (SP). Além de oferecer crédito, fazemos palestras sobre microempreendimentos. Cerca de 100 mulheres já fizeram empréstimos e não registramos um caso sequer de inadimplência no nosso primeiro ano de parceria.
Níveis mais baixos de inadimplência entre as mulheres é um fenômeno que se repete em vários programas de microcrédito ao redor do mundo. A conclusão da tese de doutorado desenvolvida na FGV-SP pelo superintendente-executivo de Serviços Especializados de Infra-estrutura do Banco Real, Cesar Righetti, pode servir como pista para uma explicação.
O estudo de Righetti analisou 20 mil clientes da RealMicrocrédito, dos quais 2 mil tomaram empréstimos de duas a oito vezes, e concluiu que a média de vendas realizada pelas mulheres começou menor que a dos homens – cerca de R$ 2,5 mil contra R$ 3,7 mil – e cresceu aproximadamente 10% a cada tomada de crédito. “Esses dados são muito animadores porque sabemos que no mundo inteiro o aumento da renda da mulher tem grandes impactos familiares, com a melhora na alimentação da família toda, uso de métodos contraceptivos e maior participação na vida social e política da comunidade”, diz Righetti.
Pelas mãos do AfroReggae
Com a ajuda do grupo AfroReggae estamos negociando com lideranças comunitárias do Complexo do Alemão – conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro – a implementação de um programa piloto da Real Microcrédito. “Como a imensa maioria dos moradores trabalha na informalidade, era difícil atender às exigências burocráticas para obter crédito. Além disso, as organizações não orientavam os clientes e alguns se endividaram porque não tinham nenhuma experiência com operações bancárias, muito menos com gerenciamento de finanças. Isso gerou frustração, desânimo e resistência da comunidade com esse tipo de produto”, explica Reginaldo Gabriel de Lima, assessor do AfroReggae.
O grupo reconhecido internacionalmente tanto pelo sucesso artístico quanto como modelo de projeto e que já contava com nosso apoio cultural foi escolhido para ser nosso parceiro pela sua enorme capacidade de penetração nas comunidades do Complexo do Alemão. Se a experiência no Complexo for positiva, será reaplicada em outras comunidades.