Desde que surgiu no cenário, a tese da sustentabilidade sofre ataques de céticos e críticos que procuram apontar suas fragilidades e contradições. Veja como a liderança do ABN AMRO Real responde a algumas dessas provocações. As questões foram colhidas na mídia nacional e internacional e distribuídas aleatoriamente entre os executivos.
 
Fabio Barbosa
Fabio C. Barbosa é presidente do ABN
AMRO REAL e acredita que é possível dar
certo, fazendo a coisa certa e do jeito certo.
 
 

1) A interdependência entre os países em relação ao meio ambiente, ao abastecimento de petróleo e seus derivados, e ao sistema financeiro internacional vai piorar ou melhorar as condições de diálogo entre os governos? A evidência da interdependência vai promover a paz ou aumentar os conflitos?

Fabio Barbosa – Por envolver previsões sobre o futuro, essa é uma questão complicada de se dar uma resposta definitiva. Entretanto, o mundo definitivamente mudou depois do ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, em Nova York. Problemas que pareciam distante das nações civilizadas, como a pobreza e o regime ditatorial no Afeganistão e no Iraque, de uma hora para outra, invadiram a agenda de governos e grandes empresas, assim como os lares da classe média dos países ricos. Ainda que em muitos casos somente pela televisão, todos perceberam que os problemas de países distantes não são somente desses países.
Assim, a interdependência chegou para ficar. Há grandes benefícios e enormes desafios. O tratado que abriu caminho para a integração dos países na União Européia acaba de completar 50 anos. Os bons resultados econômicos, a reinvenção da Europa em termos tecnológicos e inovadores que está em curso e o poder de compra do euro face ao dólar são um ótimo exemplo dos benefícios da interdependência. A diminuição das distâncias, causada principalmente pelas amplas possibilidades de deslocamentos aéreos e pela disseminação da internet, possibilita desde cirurgias à distância para salvar vidas até a articulação de redes terroristas, como é o caso da Al Qaeda. A humanidade tem uma chance única de unir esforços e buscar a promoção de uma era de paz e de desenvolvimento com a interdependência. As possibilidades estão dadas e há alternativas para melhorar a condição humana, mas só há uma certeza: não podemos cruzar os braços. Depende de cada um de nós fazer a sua parte nesse novo cenário.

 
2) O jornalista Clive Crook, ex-The Economist, no artigo “The Good Company”, publicado em janeiro de 2005, afirma que a responsabilidade social corporativa está “pintando as unhas da fera do capitalismo”. A maioria das empresas trata o tema de maneira superficial. Parecido com um tratamento cosmético, aplica o tema a cada manhã, dissemina durante o dia e retira à noite. Como você vê essa questão?
   
Fabio Barbosa – Em função da grande demanda da sociedade, as empresas estão sendo obrigadas a buscar um modelo de negócios que olhe para a maneira como se está lucrando e não apenas se o lucro aumentou ou diminuiu. Desastres ambientais, emprego de trabalho escravo, abuso econômico são variáveis que os consumidores não mais aceitam. Por convicção ou por conveniência, CEOs estão de fato falando cada vez mais no tema. Não tenho dúvidas de que um grande número de empresas está fazendo isso de forma superficial. Mas, mais do que atribuir essa questão a um golpe de marketing ou a uma questão de perfumaria, acredito que isso se dê pelo fato de que estamos no começo dessa jornada. É algo muito novo. Não temos referencial sobre como fazer ou por onde começar. Infelizmente, o tempo de aprendizado é cada vez menor e a pressão tenderá a aumentar. E isso me faz olhar a metade do copo cheio. A cada dia há mais e mais notícias sobre empresas que estão conseguindo aumentar a lucratividade e produtividade graças aos conceitos da responsabilidade corporativa ou sustentabilidade, como preferimos falar. O tema está entrando na agenda dos líderes corporativos, os clientes estão pedindo isso e a sociedade está recompensando com a valorização de empresas que se saem bem nessa questão. Entendo que ainda há muito por ser feito, mas vejo que o caminho está dado e cada vez mais trilhado por empresas que estão dispostas a aprender e mudar.
 
3) Ainda inspirado em Clive Crook: a sustentabilidade não distrai a atenção de questões éticas fundamentais e mais profundas das empresas, em particular as relativas a bancos, como a lavagem de dinheiro?

Fabio Barbosa – Na minha impressão, o jornalista citado olhou para a questão da sustentabilidade com uma lente diferente da que temos olhado. Respeito o ponto de vista, mas a nossa experiência comprova justamente o contrário. A sustentabilidade tem sido uma ótima ferramenta para endereçar essas questões éticas fundamentais. À medida que temos avançado na inserção de sustentabilidade nas diferentes áreas de negócios, temos percebido que a preocupação com um modelo de negócios diferente tem colocado em evidência outras questões como o respeito ao tratamento com o cliente, a transparência nas operações, a conversa franca sobre a lucratividade do banco e a importância da cobrança de tarifas justas. O exemplo citado, a lavagem de dinheiro também é preocupação do nosso Banco hoje muito mais do que ontem. Pesquisamos a origem do dinheiro, e transações suspeitas são monitoradas para dar o encaminhamento adequado. Se um banco se omite em relação à lavagem de dinheiro, vai incentivar a criminalidade e isso vai abalar os negócios do país como um todo no médio prazo. Esse ambiente afugenta os investidores, atrapalha a economia do país e afeta os negócios desse Banco. Do ponto de vista de uma empresa que age dentro da lei, não faz sentido apoiar ou fazer vistas grossas à criminalidade. Quero citar um outro exemplo sobre questão ética fundamental. Quando começamos a pensar sobre o que e como seria um modelo de negócios sustentável, debatemos internamente uma questão: a responsabilidade de uma empresa ao promover o desmatamento com um dinheiro emprestado pelo Banco é somente dessa empresa ou é do Banco também? Chegamos à conclusão de que a maneira como o dinheiro que emprestamos é usado também é responsabilidade nossa. Com isso, passamos a fazer uma análise de risco socioambiental das empresas antes de conceder o empréstimo. Em alguns casos, encerramos o relacionamento com as empresas e em outros fomos recompensados com a conquista de novos negócios. Sustentabilidade não distrai a atenção de questões éticas fundamentais. É o contrário: ela atrai.

Pdf para impressão desta matéria
 
acionista
 
A humanidade tem uma chance única de unir esforços e buscar a promoção de uma era de paz e de desenvolvimento com a interdependência.
 
 

top